sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Greve da PM na Bahia: trágica comédia de erros

Sugeri modestamente nas redes sociais que procuremos lançar um olhar para a greve da PM na Bahia com disposição para escapar do “lá ou cá, do tudo ou nada, dos anjos e demônios”, buscando também sutilezas e nuances de análise.

Greve é direito constitucional, instrumento de luta política, de emancipação do trabalhador. Reivindicar aumento de salário e condições dignas de trabalho, que minimizem a exploração pelo capital, é não só legal, mas justo e legítimo. Tais movimentos, no entanto, não podem ser conduzidos sob a ameaça de armas. Não podem, por exemplo, resultar em barricadas, ataques e incêndios a ônibus praticados por policiais, dentre tantos outros atos de barbárie, como denunciam moradores de Salvador. Sem generalizar – mas há certamente malandros, irresponsáveis e oportunistas no movimento, flertando muito de perto com o banditismo social, que se aproveitam da greve para fazer politicagem (não política) e disseminar pânico e terror na população, às vésperas do carnaval e em ano eleitoral.

Ao mesmo tempo, lamento, mas não me cheira bem essa tentativa de blindar e de santificar o governador Jaques Wagner, só porque ele é do PT – partido que, aliás, foi ponta de lança da greve da PM ocorrida na capital baiana em 2001, quando estava na oposição. Agora que é governo… Wagner foi no mínimo pouco hábil, politicamente insensível, omisso.

Escreve o jornalista Ricardo Kotscho, que inclusive é amigo de Jaques Wagner: “ex-líder sindical, não é possível que o governador não estivesse informado sobre o barril de pólvora armado pelos policiais militares às vésperas do Carnaval, quando embarcou para Havana, acompanhando a presidente Dilma Rousseff, na segunda-feira passada. No dia seguinte, a assembléia dos policiais decretou greve, que já conta com o apoio de um terço da categoria. (…) Deveria ter negociado e tomado providências antes, como bem sabe por sua formação sindical e a experiência de 2001, quando houve a primeira grande rebelião da PM”.

A pena lúcida da jornalista Cynara Menezes tenta também fazer um convite à racionalidade. Ela lembra que não é mais possível aceitar que o governo petista jogue na conta do carlismo (legado de Antônio Carlos Magalhães) o cenário de caos que se instalou na capital baiana. “É correto que policiais, para fazer reivindicações, amedrontem a população? Não. Mas tampouco é correto que policiais, numa sociedade democrática, nem sequer tenham suas reivindicações ouvidas pelas autoridades”. “Nem plano de cargos e salários eles têm”, diz o professor de Desenvolvimento Urbano Carlos Alberto da Costa Gomes, coordenador do Observatório de Violência da Bahia. Costa Gomes também é contra policiais intimidarem pessoas. Mas adverte que tudo chegou a esse ponto porque há 30 anos os policiais baianos pedem praticamente as mesmas coisas. Ou seja, “não foram atendidos por ACM –nem por Jaques Wagner”, escreve a repórter de “Carta Capital”.

Claro está que o governo do estado também pisou feio na bola. Poderia ter evitado o confronto. Mas preferiu ignorar sinais evidentes de que algo não ia bem. Na segunda-feira, dia 06 de fevereiro, em entrevista publicada pela “Folha de São Paulo”, Jaques Wagner admite que a avaliação feita pelos órgãos de inteligência da administração municipal que monitoravam as assembléias dos policiais militares foi equivocada. É quase uma confissão de culpa: o governo foi surpreendido pelo tamanho do movimento grevista.

A sensação que fica é de uma mistura de soberba com descaso e desdém, algo como “vamos empurrar com a barriga, não vai dar em nada, deixa estar para ver como é que fica”. O problema é que ficou – e a situação agora está para lá de enroscada. As posições se radicalizaram, os policiais militares estão aquartelados, a Assembléia Legislativa foi cercada por tropas federais. Não há interlocução. E o governo agora não sabe muito bem o que fazer. (Chico Bicudo/Correio da Cidadania)

1 comentários :

Edson Joel disse...

O governador petista Jaques Wagner demonstrou imaturidade na condução da greve dos PMs e acabou picado pela mesma cobra que atiçava contra seus adversários de então sindicalista. Mas com veneno mais potente. Antes de defender a greve como instrumento legítimo de luta, defendo o direito dos trabalhadores serem pelo menos ouvidos em suas reivindicações, o que a classe política nunca fez nem antes e muito menos agora. A instalação da barbárie praticada pelos policiais - armas em punho, ônibus incendiados, etc - deve ser condenada entusiasticamente pela sociedade - tal e qual se deve condenar a instituição da anarquia pelos sem tetos e sem terras da vida que invadem propriedades privadas ou públicas, destruindo plantações, prédios e pesquisas científicas. No caso da Bahia, pior que isso é a tentativa dos "zés bundinhas" responsabilizarem os governos anteriores pela incompetência do mandatário baiano.

Edson Joel

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