sábado, 11 de fevereiro de 2012

História: Linha de trem chega ao Contestado, expulsa caboclos e dá início a uma guerra


Eles eram crianças quando, em 1912, tropas do Exército e agentes policiais desembarcaram nos sertões de Santa Catarina e Paraná para combater seus pais, mães, tios e avós que pegaram em facões de pau e velhas espadas farroupilhas e julianas, num movimento contra o projeto de uma ferrovia em suas posses de terra e os desmandos de lideranças emergentes da República, proclamada duas décadas antes.
Às vésperas do centenário da Guerra do Contestado, a maior rebelião civil do País no século 20, que agitou o Sul entre os anos de 1912 e 1916, o Estado investigou o paradeiro das últimas testemunhas do conflito que deixou um saldo estimado de 10 mil mortos. Altino Bueno da Silva, hoje com 108 anos, Maria Trindade Martins, 105, e Sebastiana Medeiros, 102, foram localizados em porões de casas e barracos de bairros pobres, numa investigação jornalística de 12 meses, para dar a versão dos derrotados sobre os cem dias decisivos da vitoriosa campanha militar (dezembro de 1914 a abril de 1915) comandada pelo general Fernando Setembrino de Carvalho - o cerco, a tomada e a destruição do reduto caboclo de Santa Maria, principal acampamento dos revoltosos, no atual município catarinense de Timbó Grande, a 400 quilômetros de Florianópolis.

A luta sertaneja marcou uma área de 30 mil quilômetros quadrados, maior que Alagoas e o Haiti, ainda hoje uma região tratada como "maldita" pelo Poder Público - as terras do Contestado, cercadas por cidades colonizadas por europeus e com padrões de primeiro mundo, apresentam índices de desenvolvimento humano equivalentes a rincões pobres do Nordeste. É uma história de renegados em pleno Sul do Brasil.

As memórias de infância de três brasileiros que sobreviveram a uma guerra militar e enfrentam a guerra da pobreza, ultrapassando cem anos de idade numa região onde a expectativa de vida é inferior à média nacional, foram confrontadas com todos os documentos militares que se têm registro sobre o Contestado - duas mil páginas de relatórios e fotografias. As lembranças dos "meninos", que surgem lentamente, influenciadas durante anos pelos relatos de adultos, e os papéis amarelados dos vencedores, retirados de caixas de um arquivo do Rio de Janeiro, usado pelos pesquisadores do tema, embora com suas versões distintas, compõem um mosaico de violações de direitos humanos que não tinha sido visto desde o massacre das revoltas regenciais. A aproximação entre o passado e o presente fica ainda mais nítida na análise das ações e prioridades dos governos em Santa Catarina, um Estado reconhecido por sua pujança econômica.

Prisioneiros. Em 1910, a Brazil Railway Company, subsidiária da holding Lumber Company, criada pelo empresário norte-americano Percival Farquhar, concluía a construção do trecho da ferrovia São Paulo- Rio Grande do Sul no território disputado por Santa Catarina e Paraná, o Contestado. Quatro mil ex-detentos e miseráveis de Santos, Rio de Janeiro e São Paulo recrutados para as obras foram demitidos e expulsos de cabanas de palha levantadas nas margens da estrada.

A Lumber conseguiu concessão do governo para explorar pinhos e imbuias nos 15 quilômetros de cada lado da ferrovia. Os renegados engrossaram redutos formados por caboclos nativos que, por orientação de monges andarilhos, pregavam nos desertos sulistas a chegada do exército celeste de São Sebastião, chefiado por uma tropa de elite chamados de os "Pares de França", figuras de histórias medievais reproduzidos em folguedos de origem portuguesa e folhetins.

As "cidades santas", abertas em clareiras da mata do Planalto Catarinense, abrigavam ainda soldados "maragatos" opositores do governo Floriano Peixoto derrotados por tropas legais, de 1893 a 1895, e pequenos comerciantes e proprietários de terras opositores dos novos coronéis da recém proclamada República. O Contestado foi uma aliança inesperada e explosiva do caboclo simples do oeste, do político derrotado e magoado do Rio Grande do Sul, do ex-presidiário e do braçal sem rumo do Rio de Janeiro e de São Paulo. Brasileiros com qualidades, defeitos e dramas pegavam em armas. Só maquiados serviriam, mais tarde, de exemplo para grupos políticos.

A guerra dos jagunços, como o conflito foi chamado pelos caboclos, ou dos fanáticos, na designação dos militares, não teve relação direta com a disputa entre os governos paranaense e catarinense pelo território dos campos de Irani e Palmas, uma área que poucos anos antes era reivindicada pela Argentina. Somente em tempos mais recentes que pesquisadores passaram a chamar a revolta de Guerra do Contestado.

O estopim da revolta ocorreu em 22 de outubro de 1912, quando o capitão João Gualberto Gomes de Sá Filho, do Regimento de Segurança do Paraná, na liderança de 50 homens a cavalo e 200 a pé, atacou um grupo de caboclos que estavam em volta do monge José Maria de Jesus, em Irani, Santa Catarina. Antes da batalha, no deslocamento até Irani, os militares tinham perdido sua principal arma, uma metralhadora "Maxim", durante a travessia de um rio. O próprio João Gualberto teria matado o monge, reconhecendo-o por um boné de pele de onça. O militar foi retalhado a facão pelos rebeldes.

Gualberto virou um novo Moreira César - oficial morto pelos conselheiristas de Canudos. A morte de Gualberto deixou em pânico autoridades de Curitiba, Florianópolis e Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, a notícia da morte de José Maria, no mesmo combate, correu pelos campos de araucária juntamente com a ideia de que o religioso ressuscitaria. Surgiam as "cidades santas", comandadas por "virgens" de 14 e 15 anos, que repassavam para os homens as "instruções" recebidas em visões do monge. A primeira delas foi Taquaruçu, organizada por um pequeno comerciante, Eusébio Ferreira dos Santos. Uma neta dele, Teodora, dizia conversar todas as tardes com o monge José Maria.

Aos poucos, o movimento exclusivamente religioso ganhou contornos de guerrilha. Era a luta dos pelados (caboclos) contra os peludos (militares). Os facões de guamirim, madeira dura encontrada na região, esculpidos no fogo eram substituídos por armas de aço tomadas de fazendeiros, soldados e oficiais em combates na Serra da Esperança, no oeste catarinense. Winchesters, revólveres e espadas usadas na Revolução Farroupilha (1835-1840), na proclamação da República Juliana (1839) e na Revolução Federalista (1893-1895) voltavam a ser usadas em batalhas. As práticas da degola, do fuzilamento de prisioneiros e das mutilações de orelhas, assombrações das velhas guerras gaúchas, também foram reutilizadas.

A 12 de setembro de 1914, Setembrino de Carvalho assumiu o comando da 11ª Região Militar, com sede em Curitiba. Ele tinha por missão chefiar a operação de massacre dos caboclos. Este caderno descreve a campanha de Setembrino. Entre o final de dezembro de 1914 e começo de abril de 1915, o Contestado viveu o auge da guerra. Dos 18 mil homens do Exército, sete mil estavam na região. A estimativa de dez mil mortos, levantada desde o fim do conflito, não foi derrubada por novos estudos publicados. É praticamente o dobro de mortes registradas na Guerra de Canudos, na Bahia, em 1897.

Baixas. Uma análise de 76 relatórios da campanha do general Setembrino indica que, nos cem dias decisivos da guerra, cerca de 1.500 a 2 mil rebeldes morreram. A avaliação sobre os números apresentados pelos comandantes nos documentos deve levar em conta as tentativas dos militares em dar um caráter "épico" a suas ações e justificar o tamanho das tropas e a quantidade de armas e suprimentos para reprimir os caboclos. Em quatro anos de guerra, portanto, o número de mortos pode ter sido bem inferior aos dez mil registrados em estudos.

Pesquisa. O Estado consultou 13 caixas de documentos militares produzidos durante a Guerra do Contestado. Mais de dois mil papéis, fontes de livros produzidos sobre o episódio nos anos 1960 e 2000, e 87 fotografias foram reproduzidos e estão, agora, à disposição dos leitores e pesquisadores no portal estadão.com.br.

Documentos como a lista dos prisioneiros e de guias civis do Exército vêm a público na íntegra pela primeira vez. Também foram consultadas coleções de periódicos da Biblioteca Nacional, do Rio de Janeiro, e processos de terras dos cartórios de registros de Lebon Régis e Porto União, em Santa Catarina. As referências deste trabalho são os livros "Lideranças do Contestado", de Paulo Pinheiro Machado, "Messianismo e Conflito Social", de Maurício Vinhas de Queiroz, "Contestado, a Guerra Cabocla", de Aureliano Pinto de Moura, e "Guerra do Contestado: A Organização da Irmandade Cabocla", de Marli Auras.

Foi a partir da análise do acervo militar, em especial do olhar das crianças prisioneiras retratadas em antigas fotografias, que a equipe do jornal percorreu cidades e povoados de Santa Catarina e do Paraná, num total de 8,5 mil quilômetros de estradas, para colher a versão do "outro lado" da história e conhecer o legado deixado pelo conflito. Remanescentes da revolta e descendentes de caboclos que lutaram contra os militares dão sua versão ou apresentam o imaginário popular dos fatos descritos em documentos militares. Eles falam também da vida atual. As impressões sobre a realidade do Contestado e a coleta de histórias orais foram obtidas em cem dias de observação e acompanhamento do dia-a-dia dos moradores e na análise das ações e repasses de verbas do governo para as cidades da região.

Os depoimentos dos primeiros prisioneiros de Santa Maria destacam a difícil situação dos moradores do reduto, que enfrentam a tifo e a falta de comida. "Tem morrido muita gente de doença e muito pouco de bala", relatou o prisioneiro Jorge Pires do Prado, sem descrição de idade, a 3 de abril.

Outro prisioneiro, José Ribeiro da Costa, de "cinquenta e poucos anos", fala que os rebeldes estavam se alimentando de couro cozido. "As famílias têm muitas que não saem do reducto porque não deixam, que essas famílias já se alimentam de couro cosido", relata. Ele ressalta que um dos comandantes rebeldes, Joaquim, e seus homens "estão dispostos a morrerem antes que se entreguem". "Hoje, o plano do Joaquim é não atacar as forças federais e por isso, ele já pela açção da artilharia, retirou-se com seus homens para o pé da serra, dentro do mato, e está esperando que as forças entrem no reducto para ataca-la pela retaguarda." O prisioneiro relata o suposto uso de crianças pelos rebeldes. "A criançada tem incumbência de fazer gritaria, que a munição é pouca e, além disso, já os homens estão enfraquecidos pela fome", afirma.

Labirinto. Para localizar os "meninos" do Contestado, a equipe recorreu a cinco rádios da região, sistemas de som de postes, blogs comunitários, pequenos jornais, comunidades religiosas e cartórios de registros civis. Foi nos cartórios também que estavam guardados documentos de terra e processos contra líderes rebeldes para complementar as informações colhidas no acervo do Exército.

Exército conclui extermínio dos 'defensores' da monarquia

Os líderes do movimento do Contestado defendiam uma monarquia que não necessariamente era um regime de governo. Na visão dos rebeldes caboclos, a monarquia tinha elementos subjetivos e religiosos, observam pesquisadores. Mais que monarquistas, eles eram homens e mulheres descontentes com um novo regime, a República, que chegava à região ao mesmo tempo em que uma grande companhia estrangeira tomava suas terras, coronéis aumentavam seus poderes regionais e não era mais possível sobreviver com roças de subsistência.

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Os depoimentos dos prisioneiros destacam que a "monarquia" cabocla estava ligada à religião. O prisioneiro Innocencio Manoel de Mattos, 43 anos, que prestava serviço de guarda num acampamento de 250 "fanáticos", na Serra dos Pinheirais, liderado pro Inácio de Lima, relatou: "O ideal daquele povo são a restauração da monarchia e a transformação da religião, sendo isto o assunto do dia entre elles, mesmo quando executavam as suas manobras gritando vivas à monarchia e diversos santos, vivando também o nome de João Maria."

Um imigrante estrangeiro feito prisioneiro - situação rara - destaca em seu depoimento que os rebeldes do reduto da Colônia Vieira pretendiam brigar até o Rio de Janeiro para instaurar a monarquia. O agricultor Pedro Zalcalugeme, que diz apenas ter nascido na Europa, ressaltou a disposição dos caboclos. "Que querem elles? Dizem que monarchia. Estão convencidos que ela virá. Elles brigarão até o rio de Canoinhas, enquanto no Rio de Janeiro, se revoltarão, obrigando as forças a irem para lá. Por isso elles fazem questão de tomar Canoinhas e Papanduva, pois só quando chegarem nesses dois pontos, repontará a revolução no Rio. Quem os convence de tal? Não sei."

Zalgalugeme também comentou o problema da falta de alimentos e remédios. "Como passam e como se alimentam os moradores da Colônia Vieira? Lá há muita doença. Não há dia que eles não venham buscar remédio com Stanislau que já os não possue para o caso das doenças delles. Alguns, com os quaes falei, afirmam que a mortandade lá é medonha, pois, é raro o dia em que não haja mortes, tendo épocas de perderem 7 ou 8 diariamente."

Os rebeldes estavam em farrapos. "Relactivamente à roupa - estão quase nus, as ultimas que arranjaram foi de um negociante que mataram em Papanduva, na vez que tomaram esse lugar. Quanto à alimentação, acham-se na miséria, sendo canjica seu único alimento", ressalta. "Desde quando estão faltando recursos para a Colônia Vieira? Faz dois meses, nem tanto, que elles nada recebem, pois quem lhes fornecia tudo era aquele armazém que a estrada de ferro tinha no Timbó e do qual já fallei. Dizem que um tal coronel Fabrício, foi quem atacou o armazém e "esculhambou com elle"."



Líderes da repressão foram 'lavar roupa suja' em público

Após a guerra, o general gaúcho Setembrino de Carvalho (1867-1947) voltou prestigiado para a capital federal. Os rumores de que tinha superfaturado preços de rações e munições se restringiam à caserna. Ele foi nomeado ministro da Guerra pelo presidente Artur Bernardes (1922-1926), um dos governos mais criticados por violações de direitos humanos da República, por fuzilamentos de presos políticos e bombardeios de áreas civis.

O coronel cearense Tertuliano de Albuquerque Potyguara (1873-1957) tentou levar adiante a imagem de oficial destemido e brilhante. Em 1918, embarcou para a Europa, onde se juntou ao 70º Batalhão de Caçadores do Exército Francês, que atuou Primeira Guerra Mundial. Foi ferido em combate. Na crise militar de 1922, num acalorado debate no Clube Militar, chamou de "cretino" o tenente Gwyer de Azevedo, adversário de seu grupo na instituição. Azevedo rebateu: "Cretino é Vossa Excelência. Não estamos no Contestado, onde Vossa Excelência mandava fuzilar a torto e a direita".

Potyguara sempre esteve ao lado do governo, ajudando a reprimir os movimentos revoltosos dos 18 do Forte e do movimento de 1924 em São Paulo. Nesse ano, no Rio, perdeu um braço ao abrir uma correspondência com explosivo, enviada por um militar desafeto. Mesmo com apenas um braço, atuou na repressão aos paulistas que voltaram a pegar em armas contra o governo federal, em 1932. Potyguara chegou a general do Exército e foi eleito deputado federal pelo Ceará, mas não foi longe na vida pública e em cargos militares. Morreu em 1957, aos 84 anos.

O general Francisco Raul d´Estillac Leal passou o resto de seus dias tentando justificar o motivo de não dar apoio ao "destemido" capitão Potyguara e não obter sucesso na tomada de Santa Maria. Era criticado por jogar a culpa nos subordinados. Um de seus filhos, Newton Estillac Leal, foi ministro da Guerra nos anos de 1951 e 1952 do governo constitucionalista de Getúlio Vargas. Caiu após uma forte campanha de setores da imprensa que o acusavam de acolher comunistas em seu gabinete e ser uma das vozes decisivas para Vargas não mandar tropas para a Guerra da Coréia. Ao aceitar a demissão de Estillac Leal, Vargas admitia seu enfraquecimento e dava início ao processo de sua própria queda, em 1954.


Empresário norte-americano ficou milionário construindo ferrovias fantasmas

O empresário norte-americano Percival Farquhar foi o maior investidor estrangeiro no País no começo do século 20. Com dinheiro do governo brasileiro, ele lucrou construindo ferrovias fantasmas, como a Madeira Mamoré, em Rondônia. Foi também idealizador dos projetos bem-sucedidos do porto de Belém e da estrada de ferro Vitória-Minas.

Ele conseguia fechar contratos com o governo por meio de uma rede de advogados e lobistas que incluía nomes de "vultos" da história, como Rui Barbosa. No Paraná e Santa Catarina, Estados por onde passava os trilhos da ferrovia que foi o estopim da guerra do Contestado, Farquhar contratou advogados com poder político, como o vice-governador do Paraná, Affonso Camargo.

O contrato de concessão da ferrovia São Paulo-Rio Grande do Sul previa que o governo pagaria a Farquhar por quilômetro construído. O empresário, então, teria excedido nas curvas, evitando a construção de pontes e túneis. Após a conclusão da ferrovia, Farquhar ergueu em Três Barras e Calmon, cidades hoje pertencentes à Santa Catarina, um complexo madeireiro onde trabalhavam cerca de mil funcionários. Ele conseguiu do governo o direito de explorar as madeiras nos 15 quilômetros de cada margem da ferrovia. No alojamento de Três Barras, ele instalou um cinema com o único projeto de filmes do Sul do Brasil. Uma milícia monitorava os trabalhadores e recebia a tiros caboclos que ameaçavam destruir as instalações da madeireira.

Especulador nato do mercado financeiro, Farquhar começou a falir ainda em 1913, quando os combates entre militares e caboclos ainda não vivia seu auge. O complexo madeireiro foi à bancarrota em 1917, um ano depois do fim da guerra. O "monstro" criado no Contestado pelo empresário norte-americano se arrastou até os anos 1940, quando foi estatizado pelo presidente Getúlio Vargas. Farquhar morreu em 1953, aos 89 anos.

Fraudes até os anos 1940. Centenas de contratos de terras dos cartórios de Lebon Régis e Caçador, analisados pelo Estado, revelam que a madeireira Lumber fraudou processos de terras até os anos 1940, quando já tinha sido estatizada pelo governo Vargas. Os caboclos eram convencidos ou forçados por procuradores da empresa a passar para a Lumber a responsabilidade de legalizar no nome deles as posses de terras junto ao governo de Santa Catarina. Em troca, os caboclos passavam para a empresa o direito de explorar, por dez anos, as árvores das glebas. No papel, os caboclos ficavam com a terra legalizada, mas tinham de ir embora para a entrada dos homens da companhia.

Um dos contratos analisados, de 17 de abril de 1942, foi firmado entre a Lumber e dois casais de agricultores, Olímpia e Augusto de Souza e Maria Ribeiro e Augustinho Borges, de Lebon Régis, então distrito de Curitibanos. A Lumber foi representado por João Pacheco Sobrinho. Como pagamento pelo "serviço" de legalização, os colonos passavam para a companhia o direito de exploração das posses por ocupação primária de terras de domínio do Estado de Santa Catarina. Assim, a empresa poderia explorar "na gleba titulada, todas as árvores de pinho, imbuia e cedro, com as descrições assinaladas e ao preço estipulado, na escritura". "As árvores a que se refere a cláusula fixada ficam pertencendo em plena propriedade e irrevogavelmente à outorgada, para os fins de sua exploração industrial."

Em outro processo, do cartório de Lebon Régis, de 20 de abril de 1942, a Lumber estipula o tamanho das árvores que poderiam ser extraídas das glebas legalizadas. Nesse contrato firmado com os posseiros Vergílio Mariano, Manoel Ferreira de Jesus, Ibraim Cardoso dos Santos e João Raimundo de Almeida, a companhia estabelece que as árvores deveriam ter uma altura mínima de um metro acima do solo e 15 polegadas inglesas de largura. O contrato garante, porém, que a companhia poderia explorar toda espécie "suscetível de aproveitamento industrial" a seu "juízo".

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Documentário:

TV ESTADÃO


90 anos da semana de arte moderna: Banquete canibal da modernidade

Imagem histórica com alguns dos mais célebres participantes da Semana de Arte Moderna - Arquivo MIS/Divulgação
Arquivo MIS/Divulgação
Imagem histórica com alguns dos mais célebres participantes da Semana de Arte Moderna

Três noites - 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922 - deveriam definir há 90 anos a vocação cosmopolita de São Paulo, mas o céu estava nublado, fazia um calor insuportável (próximo dos 30 graus) e a elite que patrocinou a Semana de Arte Moderna sofria com o desconforto das poltronas do Teatro Municipal, alugado em nome do empresário René Thiollier por 847 mil réis. Mais interessados em fechar naquela semana a exportação de 2 milhões de sacas de café para a França do que propriamente provar que existiam no Brasil simulacros do futurista Filippo Tommaso Marinetti e do cubista Pablo Picasso, os fazendeiros e empresários que bancaram os modernistas tinham lá seus motivos para gastar tanto dinheiro com um bando de poetas, músicos, pintores e escultores rebeldes, o mais novo com 24 anos (o pintor Di Cavalcanti) e o mais velho com 34 anos (o maestro Villa-Lobos). Um deles poderia ser o de desbancar o Rio como capital cultural e escancarar o potencial moderno de uma província de taipa de pilão, ruas sem pavimento e apenas 20 mil telefones.

Ao sugerir como modelo a Semaine de Fêtes de Deauville, elegante balneário francês, Marinette Prado, mulher do cafeicultor Paulo Prado, patrono da Semana, devia ter em mente apenas um concorrido festival de música, pintura e moda. Porém, eram outros os planos dos modernistas, inclusive do pintor Di Cavalcanti, tido como idealizador do evento. Havia muito de genuína rebeldia entre os protagonistas da Semana de 22 e igual dose de oportunismo, a ponto de um de seus mentores - o escritor Oswald de Andrade, dizem - encomendar uma claque para aplaudir alguns dos colegas e um coro de descontentes para vaiar o poeta carioca Ronald de Carvalho quando declamasse o poema Os Sapos, do pernambucano Manuel Bandeira, que satirizava os poetas parnasianos, comparando-os a batráquios.

Coaxos, latidos e miados foram ouvidos no Municipal nesse segundo dia da Semana, que marcou o ano zero do modernismo no Brasil, analisado neste número do Sabático pelos professores João Cezar de Castro Rocha, Antonio Arnoni Prado e Elias Thomé Saliba, pelo crítico musical João Marcos Coelho e o curador do Masp, José Roberto Teixeira Coelho. Castro Rocha defende que é hora de reconhecer que o modernismo não começou com a Semana nem se limitou ao eixo Rio-São Paulo. Arnoni Prado, com justa razão, lembra que o historiador Sérgio Buarque de Holanda, embora sem haver participado da Semana, foi um modernista avant la lettre. Elegeu não o espalhafato de Oswald, mas a seriedade de Mário de Andrade como farol da modernidade (auto)crítica. De fato, é só ler o começo e o fim do Prefácio Interessantíssimo de Pauliceia Desvairada (escrito em 1921 e publicado no ano seguinte) para dar razão a ele. Mário inaugura com a obra o desvairismo, para seguir livremente a impulsão lírica, abjurando logo depois, no mesmo texto, a escola poética que fundara. Não só decreta sua morte como diz ao leitor que não veio ao mundo para criar discípulos. Em arte, lembra ele, “escola é igual à imbecilidade de muitos para vaidade de um só”.

O recado parecia ter destinatário certo: o parceiro modernista de primeira hora - e depois desafeto - Oswald de Andrade, cuja obsessão era criar uma escola com discípulos canibais e obedientes aos seus mandamentos de devorar a cultura estrangeira, intenção finalmente revelada seis anos depois da Semana, no Manifesto Antropófago (1928). Ela foi a pré-escola dos inconformistas de 22, decretando a ruptura com a estética do passado (a poesia parnasiana, a pintura acadêmica) no templo da elite esclarecida, o Municipal, ruptura essa convenientemente selada com o dinheiro da alta burguesia e o talento dos escritores Mário e Oswald, dos artistas visuais Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Brecheret e músicos como Villa-Lobos, entre outros. São Paulo, que já era a locomotiva do Brasil, dominando 70% das exportações, fazia renascer o mito do bandeirante paulista para colonizar o resto do País. E Paulo Prado assumia, finalmente, seu papel nos bastidores da Semana. Seis anos depois, quase que simultaneamente ao lançamento do Manifesto Antropófago de Oswald, Prado definiria o brasileiro, em seu livro Retrato do Brasil (relançado e comentado nesta edição por Elias Thomé Saliba), como um povo triste, filho da luxúria, da cobiça e do romantismo.

Mário de Andrade, evidentemente, chegou a um perfil diferente, mais próximo e fiel do brasileiro em seu livro Macunaíma. No entanto, os bandeirantes modernistas de 1922 não estavam lá tão interessados nessa questão de identidade ao organizar a Semana. NoSuplemento Literário do Estado, em 17 de fevereiro de 1962, Di Cavalcanti, ao comentar os 40 anos do evento, garante que a Semana surgiu de uma conversa entre ele, Guilherme de Almeida e o livreiro Jacinto Silva na livraria do último. Ninguém falava em antropófagos e canibais, mas em copiar, sem pudor, o Salão dos Independentes dos franceses. Graça Aranha, diplomata esperto e um ano mais velho que Paulo Prado, então com 52 anos, tinha outros interesses - mais exatamente, a irmã de Prado, Nazaré - e era um acadêmico, autor de Canaã, sobre dois colonos alemães com visões diferentes do mundo. O clássico não é o tipo do livro que modernos levariam para uma banquete antropofágico, até mesmo porque a obra sincrética de Aranha patina entre o idealismo de Tolstoi e o realismo francês.

É certo que Canaã foi publicado 20 anos antes da Semana, mas tentativas como essa de discutir o Brasil da miscigenação de raças, usando como modelo a literatura (e a filosofia) dos europeus, já recebiam críticas bem antes da Semana de 22. Em 1917, Monteiro Lobato, por exemplo, condenou a importação caricatural de estilos pictóricos em voga na Europa por Anita Malfatti (no artigo A Propósito da Exposição Malfatti, publicado no Estado em 20 de dezembro de 1917, depois rebatizado por ele, em livro, de Paranoia ou Mistificação). Lobato, que não era avesso à modernidade (contratou o serviço de ilustradores modernos em sua editora, publicando posteriormente um livro de Oswald com capa de Anita), considerava que a pintura de Malfatti era falsamente revolucionária, por replicar o expressionismo alemão e outras escolas europeias. Mário de Andrade discordou. Comprou O Homem Amarelo (1915-7), uma das telas que voltariam a ser expostas na Semana, no Municipal.

No fundo, Lobato não deixava de ter razão. Assim como Anita, Tarsila foi tocada pelo discurso antropofágico de Oswald, idealizando o Brasil mestiço com as cores dos fauvistas franceses para se converter, após 1930, ao mais rudimentar realismo socialista e acabar pintando murais religiosos e casinhas caipiras. Anita abjurou seu passado modernista e chafurdou na pintura ingênua. Di Cavalcanti, ótimo desenhista, intuitivo e vanguardista mesmo antes de 22, morreu pintando mulatas saídas de um molde único. Brecheret esqueceu as lições de Arp, Brancusi e Metrovic: acabou esculpindo cavalos e militares.

Ao falar da Semana de Arte Moderna 20 anos depois, numa palestra aos estudantes da Faculdade de Direito, em São Paulo, Mário de Andrade disse que estava delirando quando recitou versos no Municipal e que o movimento modernista foi aristocrático e destruidor. No entanto, mesmo que o escritor não tenha vivido para atestar sua ressonância (ele morreu três anos depois da conferência), certo é que movimentos como o Tropicalismo, nos anos 1960, agregaram músicos (Caetano, Gil), artistas plásticos (Oiticica, Gerchman), diretores de teatro (Zé Celso) reverentes ao Manifesto Antropófago de Oswald. Mário estava certo: é na área de pesquisa estética da cultura nacional que a Semana sobrevive no outono de sua rebeldia.

Mercadante quer dar bônus para escola que alfabetizar aluno de até 8 anos

Há menos de duas semanas no cargo de ministro da Educação, Aloizio Mercadante chegou à conclusão de que a escola não está “interessante”. Isso explicaria parte do fato de 3,8 milhões de crianças e jovens entre 4 e 17 anos estarem fora da escola, segundo dados divulgados no início da semana pela ONG Todos pela Educação. Em entrevista ao Estado, o ministro anunciou que discute o pagamento de bônus para as escolas que alfabetizarem todos os alunos até 8 anos. Essa seria sua prioridade na pasta.

Para Mercadante, ensino médio é o maior nó - Beto Barata/AE
Beto Barata/AE
Para Mercadante, ensino médio é o maior nó

Para evitar que a primeira prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) sob seu comando não se transforme em nova crise, Mercadante disse que trabalha para aumentar o banco de questões da prova, atualmente com cerca de 6 mil questões - um décimo do mantido nos EUA. Para ele, ainda há risco logístico na prova. A seguir, a entrevista:

O sr. assumiu o cargo anunciando a distribuição de tablets para professores do ensino médio. Mas como pretende cumprir o compromisso assumido pela presidente Dilma Rousseff na campanha de erradicar o analfabetismo? Quase 10% dos jovens e adultos não sabem ler nem escrever um bilhete simples.

A leitura, a redação e as primeiras contas são um direito civilizatório. É um objetivo que estamos perseguindo já há algum tempo e tardiamente, porque o País está muito atrasado no processo educacional. Nossa prioridade vai ser alfabetizar na idade certa, ou seja, reverter essa tendência do analfabetismo funcional.

É muito mais inteligente resolver na idade certa que fazer programa de recuperação depois. E muitas dessas crianças, que vão seguindo sem ler ou escrever, vão abandonar a escola. Estamos concluindo um programa amplo, focando dos 6 aos 8 anos. Precisamos de um programa que motive as prefeituras para colocar os melhores professores nas salas de aulas, que haja bônus nesse processo para o desempenho da escola e um processo de monitoramento, com avaliação pedagógica.

Como vai ser o bônus?

Bônus para as escolas que atinjam os resultados. É um tema que estamos amadurecendo. Se a escola consegue todas as crianças alfabetizadas na idade certa, temos de valorizar essa conquista. Tem de ser um grande esforço nacional.

E o que fazer com o estoque de analfabetos jovens e adultos que diminui lentamente, quase imune aos gastos do Programa Brasil Alfabetizado?

Também é muito importante que a criança frequente a pré-escola. E estamos com um problema. O governo antecipa o pagamento para as prefeituras, mas as creches estão demorando de dois anos a dois anos e meio para ficarem prontas. E o tempo das crianças é agora. Estamos acelerando uma pesquisa sobre novos meios construtivos, estrutura pré-moldadas, abrir opção para os prefeitos, com custo competitivo, fazer algum tipo de pregão eletrônico de serviços de engenharia. Se a gente resolver a entrada, com um programa pedagógico forte, não carregaremos essa herança que carregamos hoje.

Resta o jovem adulto analfabeto nas grandes metrópoles. Vai dar para tirar do papel a meta de erradicar o analfabetismo?

Temos de ser realistas: eleger prioridades e saber o que é uma herança muito antiga. É muito mais fácil construir um programa de alfabetização em parceria com indústria que no interior. A presidente tem uma forma de ver a questão das metas que eu compartilho. Ela diz que sempre precisamos estabelecer metas como quem lida com arco e flecha: mira um pouco mais acima para acertar o alvo. A meta assumida pelo governo em Dacar é chegarmos a 2015 com 6,7% de jovens e adultos analfabetos - temos 9,6%.

O Plano Nacional de Educação prevê a prova nacional de docentes. Isso vai esperar a votação do projeto no Congresso?

Vamos fazer neste ano, acho que a ideia está bem amadurecida. Pretendemos que essa prova ajude a motivar professores para trabalhar em municípios de baixo desempenho na educação e em áreas de risco. Seria uma oportunidade para atrair bons professores para essas áreas. É isso que vai mudar a qualidade da educação.

O sr. mudou o eixo do programa de inclusão digital nas escolas ao anunciar a distribuição de tablets para professores do ensino médio. O programa de distribuição de laptops a alunos foi abandonado, como sugere o estudo encomendado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE)?

O Brasil é o terceiro país onde mais se vende computadores. Para a parcela da população mais pobre, a única opção de acesso verdadeiro é a escola. Não queremos um apartheid digital, como tivemos um apartheid educacional no passado. Tanto há uma demanda por inclusão digital que as lan houses da periferias estão entupidas de jovens, que entram nas redes sociais sem usar todo o potencial dos computadores. É indispensável que a escola se modernize. O arranjo social da escola e o quadro negro são do século 18, os professores, do século 20 e os alunos, do século 21. Nós, que somos do século 20, somos imigrantes digitais, viemos de uma cultura analógica. A reflexão internacional demonstra que o computador na escola deve começar pelo professor.

O ensino médio é o maior nó em termos de evasão escolar. Não dá para o Brasil se acomodar com uma manchete que diz que 3,8 milhões de crianças e jovens de 4 a 17 anos estão fora da escola. E estão fora da pré-escola e do ensino médio. De um lado, porque não alfabetizou plenamente. O aluno perde a motivação e a capacidade de acompanhar, porque a escola não está interessante e porque o mundo do trabalho está aquecido.

E como podemos reagir de forma rápida? Dando tablet para o professor e conteúdo para ele preparar as aulas.

Uma questão mais urgente: como o sr. pretende blindar a próxima edição do Enem de mais uma crise?

O Brasil precisa ter convicção de que nenhum país desenvolvido deixa de usar instrumento semelhante ao Enem. Os Estados Unidos têm há 85 anos um exame nacional. A China tem um exame que o aluno pode fazer uma única vez na vida. Alemanha, Itália, França e Grã-Bretanha têm prova uma vez por ano. O Enem é critério de meritocracia num Estado republicano, especialmente entre os mais pobres. Houve aprimoramento ao longo desses anos, como a superação de grandes desafios logísticos de uma prova para 5,4 milhões de alunos. O Brasil não tem culpa de ser tão grande. E há riscos na logística.

Mas como evitar mais uma edição problemática?

Precisamos de um banco com um volume grande de questões. Nos EUA, há mais de 100 mil questões. Eles podem fazer sete vezes por ano, porque seleciona na hora as questões. Quando tivermos banco amplo, o risco acabará. É tanta questão a que você teria de ter acesso que o único caminho é estudar. A segunda questão são as redações. Precisamos aprimorar o critério de correção, para que tenhamos mais segurança na avaliação, pois sempre há componente subjetivo. Essas são as duas frentes mais importantes em que estamos trabalhando. (AE)

 
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