Pela primeira vez desde que se envolveu na morte do refém Lírio Persch, gaúcho que morava no Paraná, o delegado Leonel Fagundes Carivali, 41 anos, vem a público para falar sobre a participação em uma série de acontecimentos que tornaram o 21 de dezembro de 2011 uma data marcada por trapalhadas policiais.
À reportagem de Zero Hora, ele relatou as horas que antecederam a morte de Persch, em Gravataí, e alegou ter agido em legítima defesa.
Zero Hora – Como começou o seu 21 de dezembro?
Leonel Fagundes Carivali – Por volta das 2h, fui acordado por um telefonema do 17º BPM informando que o sargento tinha sido morto por pessoas que se diziam policiais do Paraná e que estavam sendo apresentados na delegacia de plantão. Perguntaram se eu sabia da presença desse policiais na nossa área. Respondi que não e que estava indo para a delegacia.
ZH – Como estava o ambiente?
Carivali – Muito tenso devido às particularidades do episódio. Eu fui até o local da morte para conhecer o cenário. Por volta das 6h, voltei para casa. Não consegui descansar porque o telefone não parou de tocar. Fui para a delegacia regional esperar o chefe de Polícia. Passei toda a manhã envolvido com a ocorrência. No início da tarde, eu recebi uma ligação de que estava circulando na área uma equipe de policiais do Paraná, estava em busca dos quadrilheiros e pedia nossa ajuda. Marcamos um encontro na cidade.
ZH –O que aconteceu depois que vocês se encontraram?
Carivali – Rodamos em busca de três veículos que estavam sendo rastreados por satélites e usados pelos quadrilheiros. Depois de uma hora, estávamos voltando para a delegacia regional quando fomos parados pela BM. Eu estava acompanhado de outro delegado. Fomos abordados pelos brigadianos, e o outro veículo, com policiais paranaenses, seguiu. Depois de identificado, desci do carro e pedi auxílio para os brigadianos na busca. Naquele exato momento, uma porta de garagem se abre bem na minha frente. Um Corsa, com insulfilme nos vidros, começa a sair de ré. Vi que era um dos veículos suspeitos. Tirei a arma do coldre e gritei que era polícia.
ZH – Atirou naquele instante?
Carivali – Não. O Corsa voltou para dentro da garagem e, pela porta direita, saiu um homem com uma arma na mão. Gritei “arma”, procedimento da rotina policial. O homem girou para ficar na posição de tiro e disparou. Eu atirei nele.
ZH – Quantos disparos fez?
Carivali – Acredito que, pelo menos, tenha atirando duas vezes, procedimento padrão da polícia. Infelizmente, errei. (A perícia apurou que foram três tiros, que acertaram o lado direito traseiro do veículo: no porta-malas, no para-choque e no vidro, disparo que acertou a vítima nas costas).
ZH – O senhor afirmou que reconheceu o Corsa. Era do seu conhecimento que o veículo estava envolvido em situação com reféns. Portanto, havia a possibilidade de eles estarem ali. Não seria mais prudente ter agido de uma outra maneira?
Carivali – Não sabíamos que estávamos na frente do cativeiro. Insisto, os tiros não foram disparos no veículo, mas no agressor com a arma.
ZH – O que aconteceu depois?
Carivali – Eles acionaram o controle para fechar o portão. Cercamos o prédio e, depois de algum tempo, eles saíram com as mãos para cima e se deitaram no chão. Foram identificados pelos policiais do Paraná. Um alemãozinho disse que era refém e que o amigo estava ferido. Vimos que estava morto e não mexemos no corpo.
ZH – Foi ali que percebeu que havia matado um refém?
Carivali – Eu não era o único policial. Mas desde de o início assumi que havia feito os disparos.
ZH – Depois, o que aconteceu?
Carivali – Liguei para minha mulher e falei o que havia acontecido. Pensava naquela hora no sofrimento da família do refém morto.
domingo, 15 de janeiro de 2012
"Pensava no sofrimento da família", diz delegado sobre morte de refém


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